Vivemos numa época de escassez de recursos financeiros para a pesquisa científica, principalmente das agências de fomento governamentais. Recentemente, dois editoriais publicados dentre as mais renomadas revistas científicas internacionais da área medica (The Lancet e Plos Medicine), abordaram a questão da supressão da veracidade ou da falta de autenticidade nas publicações científicas (1,2). Dentre os fatores responsáveis para justificar esse fenômeno, destaca-se o flagrante conflito de interesse envolvendo o pesquisador ou o “professor” contratado pelo laboratório ou pela empresa patrocinadora da pesquisa para divulgar os resultados favoráveis e as vantagens de determinados medicamentos, produtos e até mesmo técnicas cirúrgicas com novos implantes em aulas, conferências, simpósios, cursos e congressos de especialistas. A omissão delituosa do conflito de interesse tem gerado imbróglios jurídicos para as empresas patrocinadoras e tem suscitado medidas normativas com o intuito de justificar a atividade perante aos órgãos fiscalizadores e agências do governo, incluindo a receita federal. Usualmente, a área de educação continuada tem sido a escolhida pelos laboratórios e indústrias do setor farmacêutico para a divulgação das inovações no âmbito comercial(3,4).

Considerando que a quantidade de publicações científicas disseminadas pelos diversos meios de comunicação seja infinitamente superior a capacidade de processamento cerebral de um individuo sadio, várias nuances especulativas são mitigadas e desconsideradas diante da avalanche de informações inoculadas de modo eufemístico diariamente. Nesse cenário, a medicina baseada em evidências pode ser atingida, naquela situação na qual a base da evidência seja falsa, corrompida ou embiocada (5). O nefrologista Jason Fung destacou que a indústria farmacêutica tem dominado o financiamento de pesquisas em algumas instituições acadêmicas, incluindo o pagamento de salário adicional para o patrocínio do individuo que irá coordenar e difundir os resultados favoráveis de determinado produto ou medicamento. Na maioria dos casos, essas informações são de conteúdo retórico com ênfase nas vantagens e ocultação dos resultados negativos e efeitos adversos. Essa manipulação dos resultados altera o desfecho primário da pesquisa e direciona a conclusão de modo sub-reptício por um viés auspicioso e inaudito. Isso inclui as publicações científicas aceitas em revistas indexadas devido ao patrocínio das empresas sobre essas revistas, e que pode ser considerado um víes alvissareiro (6).

Outro subterfúgio utilizado consiste na elaboração de consensos e protocolos para o tratamento de determinada afecção. Após a revisão de artigos sobre o tema são escolhidos os estudos mais bem elaborados metodologicamente, e não se chega a nenhuma conclusão sobre a melhor evidência terapêutica, na maioria das situações clínicas. A divulgação da pesquisa baseada em evidências ocorre em periódicos científicos com elevado fator de impacto, sendo utilizado para balizar as condutas médicas sobre o assunto. Os consensos e protocolos elaborados por “especialistas”, geralmente patrocinados pelos laboratórios, são disseminados em eventos e publicações, na tentativa de nortear as intervenções recomendáveis para algum problema clínico ou cirúrgico (7). Esse manual de orientações é introjetado de modo arbitrário pelas entidades na área da saúde, sem levar em consideração a relação médico-paciente, o sigilo médico, a autonomia do profissional de saúde e a escolha do doente e dos familiares envolvidos. Os efeitos deletérios das intervenções patrocinadas pelos laboratórios são subnotificados ou ocultados, assim como as relações comerciais entre empresas, hospitais e “especialistas” e acabam ficando relegados para a posteridade. O lucro a qualquer custo não deve prevalecer sobre a magnanimidade da vida humana.

 

Referências

1.Horton R. Offline:What is medicine’s 5 sigma? The Lancet11 April 2015; Vol 385,No 9976:p 1380. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(15)60696-1

  1. Ioannidis JP . Why most clinical research is not useful. PLoS Med 2016;13:e1002049.doi:10.1371/journal.pmed.100204
  2. Camanho, Gilberto Luis. Editorial:Formação do médico.Rev. bras. ortop.2016;51(1):1-2. DOI:  http://dx.doi.org/10.1016/j.rboe.2016.01.003.

4.Holmer AF. Industry strongly supports continuing medical education. JAMA 2001;285:2012-4

  1. Relman AS, Angell M. America’s other drug problem: how the drug industry distorts medicine and politics. New Rep.2002 Dec 16;227(25):27-41.

6.Fung J. The Corruption of Evidence Based Medicine-Killing for Profit. https://medium.com/@drjasonfung/the-corruption-of-evidence-based-medicine-killing-for-profit-41f2812b8704. Acessado em 20 de abril de 2018 às 21h34min.

  1. Iacovoni M, Carvalho RT. Editorial: A Empulhação Legitimada. Técnicas em Ortopedia 2013;13(1):4. Link: http://tecnicasemortopedia.com.br/wp-content/uploads/2013/07/Rev-Tec-Ortop-2013-1.pdf. Acessado em 21 de abril às 18h33min.
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